Era uma vez um velho amor que se vestiu de arrogância inocente e entrou pela janela do meu quarto numa segunda-feira vazia. Esticou o corpo e passou a apontar minhas pernas pernas tortas, suas pernas fortes, o descompasso dos meus pés e sua capacidade de saltar.
Esparramamos sobre os lençóis que eu não havia trocado as fórmulas da cartilha que usamos durante dez longos anos para nos trazer exatamente ao mesmo lugar.
E eu fiquei ali, apertando entre minhas muletas aquela coleção de erros, organizando-os por ordem cronológica para que ele os esfiasse numa pasta amarela.
Eu era mais uma vez a bailarina cega, ouvindo a música composta para mim por maestro nenhum.
Era a dançaria surda, envolta pelos finos trapos do desprezo, sentada num tribunal onde os jurados não respiravam além dos muros da minha própria mente.
E então era eu eu mesma, rasgando toda a culpa e dançando nua na frente daquele pra quem eu sempre achei que devia desculpas.
E dancei de olhos fechados. Dancei até perceber que não havia mais nada naquele velho amor que se combinasse comigo, nem nada daquele velho amor na minha cama, esperando que eu me rendesse aos meus pecados novamente.
E dancei porque eu gostava de dançar.
E quando me deitei novamente, sozinha e exausta, molhei despreocupada o colchão com as gotas do suor que ninguém me ajudou a produzir e percebi que não me importava mais com o jeito como ele escolhia sofrer.
Eu não me importava mais com nada além de mim, era feliz e não precisava de platéia.
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