Sentei no jardim com as pernas cruzadas, apoiando meu filho nelas. Era meio da tarde, meio de uma pandemia de um vírus novo, meio do turno em regime de teletrabalho. A vida andava meio complicada e eu tinha muito tempo pra pensar nela, então passei a desbastar as cebolinhas...
Eu era mãe há cinco meses, pedagoga há nove e militante desde que entendi o significado dessa palavra. E àquela altura da vida, minha coleção de informações úteis e inúteis já havia transbordado do potinho, encharcado todo chão e começava a evaporar ao ar livre.
Tem tanta regra pra ser mãe né?
É tanta diretriz, tanta verdade absoluta e palpite de vizinho. Corrente teóricas: um zilhão! E os macetes para estabelecer uma rotina? Os treinamentos de sono? Alimentos que assam o bumbum ou movimentos que viram o bucho? Sem falar nas adoráveis redes de apoio e naquelas mensagens de solidariedade que a gente recebe...
Mas gente...
E mesmo com todo esse aparato, só o que eu lia nas redes e ouvia das outras mães era como aquilo tudo de casa, filho, família e trabalho era difícil e cansativo e como se anulavam em suas maternidades, vivendo nas brechas do espaço dos seus filhos: ou quando estes dormiam ou então estavam aos cuidados de outra pessoa.
Mas gente (de novo!)....
Eu ali, replantando as cebolinhas, ia refletindo sobre minha prática educativa como mãe e professora, mas talvez um pouco mais como mãe, chegava a mesma conclusão: uma das coisas mais bonitas na educação é que não existe verdade única, nem tanto certo e errado assim... E muitas vezes a gente se esquece de observar a criança, antes de se entupir de informação. A gente esquece que cada uma é um pequeno ser humano, com sua personalidade, preferências, dias bons e ruins (assim como você não é igual sua mãe ou gosta exatamente do que seu irmão gosta).
Nesse momento o Cícero passou a arrancar as cebolinhas, assim como eu...
O mais difícil para nós humanos é a mudança de hábitos, o que não quer dizer que você precisa acender a luz, ligar uma música e chacoalhar brinquedos às três da manhã porque seu filho acordou. Assim como você não vai deixá-lo almoçar Doritos porque deve respeitar o poder de escolha e autonomia dele. O responsável pela saúde dele é você. Só que o responsável pela sua saúde também é você.
A criança quando chega é sim o centro, mas ela não pode fazer a galáxia parar de girar!
Pra que aquela nova relação se torne uma troca, não um fardo.
E eu mantive a rotina, só que com uma criança pendurada no corpo, o que deixa tudo mais lento. Logo a gente acostuma com as atividades interrompidas e com uma vida social e sexual bem menos agitada. Ah, talvez a privacidade no banheiro também tenha diminuído substancialmente...tsc
Porque foi isso que eu escolhi quando decidi ser mãe. E isso é ser mãe. Ou perdi alguma coisa?
E não posso deixar de mencionar o puta companheiro, pai e marido que não me ajuda, mas sim divide os cuidados do pequeno comigo!
Ahh, mas seu filho é bonzinho! Se fosse o meu...
Hunf, o meu chora pra caralho e não desce do colo. Mas mesmo assim o coloquei no esquema que já existia aqui quando ele chegou, diminuindo o ritmo para acolhê-lo sem interromper o fluxo, pois afinal, quem é que vai querer passar esses anos estressada, como coadjuvante do crescimento do filho, esperando pra se reencontrar num futuro incerto? Na próxima brecha?
A prioridade deve ser a qualidade do dia.
E acho que é isso.
E o Cícero de punhos cerrados chupava cebolinhas...
sexta-feira, 24 de abril de 2020
sábado, 11 de janeiro de 2020
O que não te contaram sobre o parto
Parto humanizado, natural, vaginal, cesariano...
Primeira coisa que não te contaram sobre o parto (e também sobre o puerpério, aquela palavra estranha que a gente nem imagina que exista mas que de repente transforma fundamentalmente nossa vida) é que a frase famosa que diz "Quando nasce um filho nasce também uma mãe" veio com erro.
Quando você escuta isso logo pensa que seu filho vai chegar aos seus braços, você chorará de emoção e alegria e com seu instinto maternal aflorado saberá identificar as necessidades dele e supri-las com êxito e gratidão.
Não. Nããããão. Não mesmo.
Vamos por partes...
O parto
Uma linda amiga me disse que "Parto humanizado é aquele que deixa a mulher mais tranquila".
Sentiram a leveza e o poder dessa frase?
Hoje em dia o parto pode ser uma escolha, pois a cesária se transformou num objeto de consumo, podendo ser uma opção pras mamães. Mas independente dos motivos que as levam a escolher, não podemos esquecer que o parto cesariano é um procedimento cirúrgico (muito bem vindo em parturientes de risco, obrigada) e portanto uma forma artificial de nascimento e que a mulher foi biológica e fisiologicamente constituída para parir pela vagina.
Esclarecidas?
A dor do parto vaginal
Um trabalho de parto pode durar horas ou dias, fator principal de desencorajamento para a mulher encarar esse processo.
Mas o que não te contaram?
Que você não passará todo esse tempo com dor.
As dores das primeiras fases do parto provém das contrações, que são como ondas: elas têm pico e duração. As contrações começam do zero, aumentam de intensidade, alcançam um pico, diminuem e terminam, voltando ao zero. E você passa alguns instantes (vai depender do tempo de intervalo entre elas) não sentindo absolutamente nada. Eu dormi entre as minhas.
Além disso, no início do trabalho de parto as contrações serão mais espaçadas e menos intensas, ou seja, vem aquela dorzinha leve e totalmente suportável e demora até vir a próxima (o tempo de duração dos intervalos e das contrações vai depender de mulher para mulher, no meu caso começaram de 3 em 3 minutos quase sem dor e terminaram de 3 em 3 minutos com dor mais intensa).
Dilatação
A contração serve para dilatar o canal por onde o bebê vai atravessar, então quanto mais tempo durar o trabalho de parto e mais contrações você tiver, maior será a sua dilatação. De novo, esse processo também varia de mulher para mulher, mas não foge à regra. E se você pensar por esse lado, a contração é sua amiga. Receba-a. Ajude seu corpo. E não se esqueça que toda mulher dilata se enfrentar esse processo.
Psicológico
(No princípio era o verbo)
A palavra não é a tal força criadora? E nós, bons humanos que somos, organizamos o pensamento antes de construir a fala, portanto é nossa cabeça quem manda aqui.
Uma das coisas que mais me ajudaram a enfrentar a fase ativa do meu trabalho de parto (que durou 1h de dor intensa) foi não me entregar pro desespero, lembrando que aquele momento ia passar. E só, porque na hora você não consegue fazer mais do que isso (eu também consegui falar com o bebê em pensamento, uhuul, entendendo que ele era parte daquele processo e encorajando-o a descer e sair pro mundão).
Resumindo: você encara a dor, ciente de que você precisa dela e que ela vai passar.
Pronto.
Ele nasceu!
O puerpério
Agora já posso te contar um segredo que aposto que ninguém contou: o parto não era o mais importante! tsc
Por mais extenso e cansativo que seja o seu trabalho de parto ele é infinitamente mais rápido do que a sua maternidade. Então, prepare-se para o momento em que você estiver de volta à sua vida, abalada pela descarga hormonal do pós parto, talvez dolorida, completa e profundamente insegura,com um bebê para cuidar e cheia de palpites de como fazer! ;)
Então, parafraseando minha amiga querida: "maternidade humanizada é aquela que deixa a mulher e o bebê mais tranquilos".
Existem milhões de correntes teóricas, argumentos científicos e verdades absolutas de vizinhança pra te dizer como cuidar do seu filho, como se os bebês fossem uma categoria mecânica e uniforme.
Pense assim: os adultos são todos iguais? Você tem as mesmas reações e preferências que sua mãe ou irmão?
Pronto. Observe seu bebê, acalme-se pra conseguir perceber seu próprio instinto e lembre-se que não existe regra ou receita. Se os dois estiverem confortáveis com sua prática, ela está certa.
Ah, e por favor não se esqueça: bebês choram para caralho!!
Primeira coisa que não te contaram sobre o parto (e também sobre o puerpério, aquela palavra estranha que a gente nem imagina que exista mas que de repente transforma fundamentalmente nossa vida) é que a frase famosa que diz "Quando nasce um filho nasce também uma mãe" veio com erro.
Quando você escuta isso logo pensa que seu filho vai chegar aos seus braços, você chorará de emoção e alegria e com seu instinto maternal aflorado saberá identificar as necessidades dele e supri-las com êxito e gratidão.
Não. Nããããão. Não mesmo.
Vamos por partes...
O parto
Uma linda amiga me disse que "Parto humanizado é aquele que deixa a mulher mais tranquila".
Sentiram a leveza e o poder dessa frase?
Hoje em dia o parto pode ser uma escolha, pois a cesária se transformou num objeto de consumo, podendo ser uma opção pras mamães. Mas independente dos motivos que as levam a escolher, não podemos esquecer que o parto cesariano é um procedimento cirúrgico (muito bem vindo em parturientes de risco, obrigada) e portanto uma forma artificial de nascimento e que a mulher foi biológica e fisiologicamente constituída para parir pela vagina.
Esclarecidas?
A dor do parto vaginal
Um trabalho de parto pode durar horas ou dias, fator principal de desencorajamento para a mulher encarar esse processo.
Mas o que não te contaram?
Que você não passará todo esse tempo com dor.
As dores das primeiras fases do parto provém das contrações, que são como ondas: elas têm pico e duração. As contrações começam do zero, aumentam de intensidade, alcançam um pico, diminuem e terminam, voltando ao zero. E você passa alguns instantes (vai depender do tempo de intervalo entre elas) não sentindo absolutamente nada. Eu dormi entre as minhas.
Além disso, no início do trabalho de parto as contrações serão mais espaçadas e menos intensas, ou seja, vem aquela dorzinha leve e totalmente suportável e demora até vir a próxima (o tempo de duração dos intervalos e das contrações vai depender de mulher para mulher, no meu caso começaram de 3 em 3 minutos quase sem dor e terminaram de 3 em 3 minutos com dor mais intensa).
Dilatação
A contração serve para dilatar o canal por onde o bebê vai atravessar, então quanto mais tempo durar o trabalho de parto e mais contrações você tiver, maior será a sua dilatação. De novo, esse processo também varia de mulher para mulher, mas não foge à regra. E se você pensar por esse lado, a contração é sua amiga. Receba-a. Ajude seu corpo. E não se esqueça que toda mulher dilata se enfrentar esse processo.
Psicológico
(No princípio era o verbo)
A palavra não é a tal força criadora? E nós, bons humanos que somos, organizamos o pensamento antes de construir a fala, portanto é nossa cabeça quem manda aqui.
Uma das coisas que mais me ajudaram a enfrentar a fase ativa do meu trabalho de parto (que durou 1h de dor intensa) foi não me entregar pro desespero, lembrando que aquele momento ia passar. E só, porque na hora você não consegue fazer mais do que isso (eu também consegui falar com o bebê em pensamento, uhuul, entendendo que ele era parte daquele processo e encorajando-o a descer e sair pro mundão).
Resumindo: você encara a dor, ciente de que você precisa dela e que ela vai passar.
Pronto.
Ele nasceu!
O puerpério
Agora já posso te contar um segredo que aposto que ninguém contou: o parto não era o mais importante! tsc
Por mais extenso e cansativo que seja o seu trabalho de parto ele é infinitamente mais rápido do que a sua maternidade. Então, prepare-se para o momento em que você estiver de volta à sua vida, abalada pela descarga hormonal do pós parto, talvez dolorida, completa e profundamente insegura,com um bebê para cuidar e cheia de palpites de como fazer! ;)
Então, parafraseando minha amiga querida: "maternidade humanizada é aquela que deixa a mulher e o bebê mais tranquilos".
Existem milhões de correntes teóricas, argumentos científicos e verdades absolutas de vizinhança pra te dizer como cuidar do seu filho, como se os bebês fossem uma categoria mecânica e uniforme.
Pense assim: os adultos são todos iguais? Você tem as mesmas reações e preferências que sua mãe ou irmão?
Pronto. Observe seu bebê, acalme-se pra conseguir perceber seu próprio instinto e lembre-se que não existe regra ou receita. Se os dois estiverem confortáveis com sua prática, ela está certa.
Ah, e por favor não se esqueça: bebês choram para caralho!!
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Todo colo que não o meu
Sabe aquele dia em que você se sente como o cocô do cavalo do bandido?
Pois bem... bom dia!
Minha vida é maravilhosa. Então devem ser os hormônios...tsc
Devem haver muiiiitos hormônios no choro do meu filho, porque me desmancharam.
Daí eu escorri com essa chuva que nos amanheceu e fiquei cinza igual o concreto do chão da minha casa, o asfalto da rua onde moro, o cenário político do Brasil.
Pinguei um café na minha xícara preferida pra ver se levantava o ânimo depois que o bacuri dormiu. Também usei o bule preferido. O pó preferido. A vela tava lá, indiferente às minhas intenções de acendê-la. Eu andava precisando inventar um santo novo pra socorrer às minhas preces de mãe.
Eu era ótima pra dar peito. Excelente debaixo do chuveiro. As coisinhas dele estavam sempre em ordem, fáceis, limpas. A casa, a roupa, o marido, a comida, a cachorra e a gata também. Mas quando ele chorava, todo mundo conseguia consolá-lo nos braços, menos eu.
Pensei na chupeta, já à postos pra me conceder um filho calmo e tranquilo, que curtisse sua própria existência isento de lágrimas. Mas a chupeta ia acabar roubando o único papel que eu me orgulhava em desempenhar como mãe de primeira viagem. Eu era a chupeta ambulante dele. Arremessei a chupeta de volta ao esquecimento. Tomei mais café. Ele ainda dormia.
Será que toda mãe se sente assim? Os isso é mais uma crise existencial meteorológica?
Acendi a vela. Tomei outro gole de café. Trouxe o carrinho mais pra perto.
Lembrei de como negligenciei meu futuro por trinta anos, ignorando a preparação para esse momento; como desconhecia meu próprio corpo na gestação e tive que me esforçar para descobri-lo. Daí minha mente maravilhosa empurrou para o emaranhado de pensamentos que organizava para escrever a lembrança do momento do parto, onde superei todas as minhas expectativas (assim como as da minha mãe, dos enfermeiros e da própria médica), dando um show na maternidade.
Eu era capaz então. Outro gole de café (gelado). Voltei pra vela. Decidi escovar os dentes.
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Epopéia de uma grávida solitária
Oi, você está grávida! E solteira.
Isso quer dizer que cada célula do seu corpo se reprograma para gerar uma vida dentro da vida que elas já eram responsáveis, só que como prioridade... As vitaminas são pro neném, a água é pro neném, o calor é pro neném, a imunidade pro neném. Você fica com os desmaios, intestino preso, as espinhas e a dor nos seios.
A gravidade do seu próprio corpo muda. Todos os órgãos trabalham de maneira diferente.
Os sentidos se alteram completamente.
Daí entram os hábitos: você vai precisar fazer absoluta e radicalmente tudo diferente, por mais que às vezes se esqueça que está grávida.
Você acorda e precisa planejar o melhor jeito de levantar da cama. Você vomita ou não e depois escolhe a melhor coisa da sua cozinha para comer, de preferência que não te faça vomitar de novo (não, você não pode colocar o celular na soneca e sair correndo de casa pra caçar um café na rua no último minuto). Depois disso você escolhe a roupa que muitas vezes não combina mas que te permite suportar o calor e a cólica enquanto trabalha e passa o dia administrando o inchaço das pernas e ador insuportável das costas. Daí você reza para se lembrar que está grávida antes de explodir em lágrimas na frente de todo mundo ou bater em alguém que fez algo idiotamente irritante.
E quando o dia acaba e você está completamente descabelada e mau humorada de azia, depois de ter jogado a carteira no lixo e perdido horas procurando, ter molhado sua calcinha de xixi quando espirrou, esquecido o documento mais importante da reunião, trocado os endereços dos compromissos, peidado ao se levantar da cadeira do restaurante e outra infinidade de etcs, sua amiga te liga e você não pode colocar uma roupa maravilhosa (porque você não tem mais roupas maravilhosas), um perfume mulher fatal (porque ele te enjoa) e sair para encher a cara (porque você está grávida) e paquerar (porque você está grávida). Então você come sopa porque é saudável e não engorda e assiste aquele filme de novo. Você pensa em fazer um Tinder no meio dos diálogos que quase decorou, mas não consegue decidir se coloca a foto da sua barriga logo de cara pra evitar explicações detalhadas (e consequentemente likes) ou se coloca a do rosto (ates de engravidar porque você ainda penteava e trançava o cabelo) e arrisca fugas no ato de contar que está grávida. Ai, não, sem Tinder...
Daí o bebê nasce. Ufa, você vai ter alguns intervalos de quinze minutos da maternidade ao longo do dia. Não, não vai. Você vai lavar roupa, enxoval, mamadeira, vômito, o vaso que a cachorra destruiu por ciúme e quem sabe consiga cagar também. Vovó vai ajudar, papai vai ajudar, mas quando a bolinha rosada chorar só você vai saber porque e conseguir fazê-la parar, pois leva um tempo para que o bebê que foi feito das células do seu corpo torne-se uma outra pessoinha, com vulnerabilidade gradualmente reduzida e consciência individual.
Então passou-se dois ou três anos desde que você descobriu que estava grávida , mudou todos os seus hábitos, vendeu a bicicleta, executou seus planos, enfrentou seus medos, esqueceu o que era sexo e trabalhou pra pagar tudo isso. E finalmente o pai vai querer pegar o bebê pra curtir a paternidade, dizendo que é 50% responsável pela criança.
Oi? Nossa! Esse chute foi no meu estômago...
Por mais maravilhosos e bem intencionados que vocês sejam, pais, paternidade não é doação de esperma ou divisão de gastos com a criança.
Paternidade terá que ser construída e merecida a medida que a criança cresce, assim como a maternidade foi e tem sido, porque enquanto a mamãe estava nesse turbilhão descrito aí em cima, o papai acordava pra trabalhar normalmente, tomava cerveja no final do dia, cagava sem hemorroida, idealizava o futuro, paquerava no Facebook, não molhava a camiseta com o bico do peito, viajava de van sem vomitar e contava felizão pros amigos sobre a chegada de seu herdeiro.
A igualdade dos direitos se confunde quando a gente não tem clareza sobre as diferenças bio e fisiológicas do homem e da mulher e também das construções dos papéis de cada um.
Laços e méritos são conquistas, não convenções.
Papais, vocês vão precisar de muiiiiiiiiiiito mais pra serem realmente pais!
;)
Isso quer dizer que cada célula do seu corpo se reprograma para gerar uma vida dentro da vida que elas já eram responsáveis, só que como prioridade... As vitaminas são pro neném, a água é pro neném, o calor é pro neném, a imunidade pro neném. Você fica com os desmaios, intestino preso, as espinhas e a dor nos seios.
A gravidade do seu próprio corpo muda. Todos os órgãos trabalham de maneira diferente.
Os sentidos se alteram completamente.
Daí entram os hábitos: você vai precisar fazer absoluta e radicalmente tudo diferente, por mais que às vezes se esqueça que está grávida.
Você acorda e precisa planejar o melhor jeito de levantar da cama. Você vomita ou não e depois escolhe a melhor coisa da sua cozinha para comer, de preferência que não te faça vomitar de novo (não, você não pode colocar o celular na soneca e sair correndo de casa pra caçar um café na rua no último minuto). Depois disso você escolhe a roupa que muitas vezes não combina mas que te permite suportar o calor e a cólica enquanto trabalha e passa o dia administrando o inchaço das pernas e ador insuportável das costas. Daí você reza para se lembrar que está grávida antes de explodir em lágrimas na frente de todo mundo ou bater em alguém que fez algo idiotamente irritante.
E quando o dia acaba e você está completamente descabelada e mau humorada de azia, depois de ter jogado a carteira no lixo e perdido horas procurando, ter molhado sua calcinha de xixi quando espirrou, esquecido o documento mais importante da reunião, trocado os endereços dos compromissos, peidado ao se levantar da cadeira do restaurante e outra infinidade de etcs, sua amiga te liga e você não pode colocar uma roupa maravilhosa (porque você não tem mais roupas maravilhosas), um perfume mulher fatal (porque ele te enjoa) e sair para encher a cara (porque você está grávida) e paquerar (porque você está grávida). Então você come sopa porque é saudável e não engorda e assiste aquele filme de novo. Você pensa em fazer um Tinder no meio dos diálogos que quase decorou, mas não consegue decidir se coloca a foto da sua barriga logo de cara pra evitar explicações detalhadas (e consequentemente likes) ou se coloca a do rosto (ates de engravidar porque você ainda penteava e trançava o cabelo) e arrisca fugas no ato de contar que está grávida. Ai, não, sem Tinder...
No dia seguinte é tudo exatamente igual, então você começa a gastar seus neurônios com os planejamentos da chegada do seu bebê: você muda os móveis de lugar, faz listas de coisas úteis, faz listas de coisas inúteis, vai à lojas pra cotar preços de coisas úteis e inúteis, testa receitas pra fazer pro seu filho quando ele for depender da sua comida, pensa nas coisas que você já não usa mais e poderia vender pra aumentar a poupança maternidade (como a sua bicicleta nova e vermelha, o growler de chope ou algum modelito sexy balada), faz um projeto de roseiras e balanço no jardim pra ele brincar depois da escola, investe desesperada na educação do cachorro e mais outra infinidade de etcs que só passam pela cabeça da mãe. Porque agora você está grávida, anêmica, hormonalmente louca, com um guarda-roupas limitado, mudando hábitos, planejando o futuro e sozinha, pois a gestação é algo naturalmente solitário. Por mais que seus amigos, familiares ou o pai da crianças te acompanhem nos ultrassons, deem presentes, apoio e conselhos, tudo acontece no seu corpo e você não pode pedir pra alguém segurar a gestação só um pouquinho pra você curtir aquela festa, fazer a faxina dos sonhos ou a trilha pra cachoeira.
Daí o bebê nasce. Ufa, você vai ter alguns intervalos de quinze minutos da maternidade ao longo do dia. Não, não vai. Você vai lavar roupa, enxoval, mamadeira, vômito, o vaso que a cachorra destruiu por ciúme e quem sabe consiga cagar também. Vovó vai ajudar, papai vai ajudar, mas quando a bolinha rosada chorar só você vai saber porque e conseguir fazê-la parar, pois leva um tempo para que o bebê que foi feito das células do seu corpo torne-se uma outra pessoinha, com vulnerabilidade gradualmente reduzida e consciência individual.
Então passou-se dois ou três anos desde que você descobriu que estava grávida , mudou todos os seus hábitos, vendeu a bicicleta, executou seus planos, enfrentou seus medos, esqueceu o que era sexo e trabalhou pra pagar tudo isso. E finalmente o pai vai querer pegar o bebê pra curtir a paternidade, dizendo que é 50% responsável pela criança.
Oi? Nossa! Esse chute foi no meu estômago...
Por mais maravilhosos e bem intencionados que vocês sejam, pais, paternidade não é doação de esperma ou divisão de gastos com a criança.
Paternidade terá que ser construída e merecida a medida que a criança cresce, assim como a maternidade foi e tem sido, porque enquanto a mamãe estava nesse turbilhão descrito aí em cima, o papai acordava pra trabalhar normalmente, tomava cerveja no final do dia, cagava sem hemorroida, idealizava o futuro, paquerava no Facebook, não molhava a camiseta com o bico do peito, viajava de van sem vomitar e contava felizão pros amigos sobre a chegada de seu herdeiro.
A igualdade dos direitos se confunde quando a gente não tem clareza sobre as diferenças bio e fisiológicas do homem e da mulher e também das construções dos papéis de cada um.
Laços e méritos são conquistas, não convenções.
Papais, vocês vão precisar de muiiiiiiiiiiito mais pra serem realmente pais!
;)
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Nada pra ela
Um dia ela sonhou com o calor na pele do final do dia, aquecendo os movimentos do manejo do varal
sonhou com a música do carro e com a inocência de vozes agudas recriando arranjos no banco de trás
sonhou em ensinar a contar as estrelas,
a ser homem
a ser mulher
Sonhou com as histórias que poderia encenar com gravetos,
e com os milagres de transformar o salário em abrigo
Ela sonhou com o cheiro dele,
com o beijo que não se pede no meio das borbulhas da panela
e com as brigas que alimentam a cama
e em ter quem lhe trocasse a lâmpada ou dirigisse até médico
Sonhou em ter de quem cuidar
e lhe obrigar a ser cuidada
Assoprar sua arrogância
E não ter mais o medo do dia seguinte
Ela sonhou...
sonhou muito
sonhou acordada
no tempo em que não pôde dormir,
porque dormir sempre a assustou
Misturou sonho, fuga, desejo e desespero
em seu elixir particular de sobrevivência
Bebeu,
e deixou tudo em sonho,
pois essas coisas não eram pra ela...
sonhou com a música do carro e com a inocência de vozes agudas recriando arranjos no banco de trás
sonhou em ensinar a contar as estrelas,
a ser homem
a ser mulher
Sonhou com as histórias que poderia encenar com gravetos,
e com os milagres de transformar o salário em abrigo
Ela sonhou com o cheiro dele,
com o beijo que não se pede no meio das borbulhas da panela
e com as brigas que alimentam a cama
Sonhou em trabalhar menos, em beber menos, em parar de errar
Sonhou em nunca mais acordar com o pavor de estar sozinha no meio de uma tempestade de verãoe em ter quem lhe trocasse a lâmpada ou dirigisse até médico
Sonhou em ter de quem cuidar
e lhe obrigar a ser cuidada
Assoprar sua arrogância
E não ter mais o medo do dia seguinte
Ela sonhou...
sonhou muito
sonhou acordada
no tempo em que não pôde dormir,
porque dormir sempre a assustou
Misturou sonho, fuga, desejo e desespero
em seu elixir particular de sobrevivência
Bebeu,
e deixou tudo em sonho,
pois essas coisas não eram pra ela...
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Sobre os vazios
Para os buracos, os vazios e a falta de respostas, desenvolvemos incalculáveis maneiras de nos preencher, sentir bem, cheios, iludidos, otimistas ou apenas minimamente dignos de vestir a fina camada de verniz da civilização.
Igrejas, drogas, livros, ideologias, sexo, novela, artes, Ongs, Feng-Shui. E a escrita.
Quem escreve é como quem se excita na escolha da roupa para festa, é quem vai pra festa, é quem se entorpece ou medita, goza, finge, louva.. é quem encontra uma dessas maneiras de ressignificar a própria interpretação do mundo, o mundo em si e a vida.
Escrever é uma alternativa para suportar a existência, traduzi-la, ou romantizá-la; é uma maneira de existir e não estar só e a forma mais verdadeira de estar absolutamente sozinho.
É ter tudo dentro de uma pequena caixa de ossos oca.
É se conectar mesmo que ninguém jamais leia, ou leia e não se deixe tocar. Ou seja tocado e esqueça um segundo e meio depois.
É qualquer história, um sonho, uma divagação, uma frustração, uma mentira e a mais pura das verdades.
É alguém. É você. Eu. Não é nada.
É tudo no nada.
É.
Igrejas, drogas, livros, ideologias, sexo, novela, artes, Ongs, Feng-Shui. E a escrita.
Quem escreve é como quem se excita na escolha da roupa para festa, é quem vai pra festa, é quem se entorpece ou medita, goza, finge, louva.. é quem encontra uma dessas maneiras de ressignificar a própria interpretação do mundo, o mundo em si e a vida.
Escrever é uma alternativa para suportar a existência, traduzi-la, ou romantizá-la; é uma maneira de existir e não estar só e a forma mais verdadeira de estar absolutamente sozinho.
É ter tudo dentro de uma pequena caixa de ossos oca.
É se conectar mesmo que ninguém jamais leia, ou leia e não se deixe tocar. Ou seja tocado e esqueça um segundo e meio depois.
É qualquer história, um sonho, uma divagação, uma frustração, uma mentira e a mais pura das verdades.
É alguém. É você. Eu. Não é nada.
É tudo no nada.
É.
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